terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Andar'ilha
lavar rosto e molhar pé nessa baía d'eu, meu sinhô
eu vim sentar um pouco à beira-mim
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
A Rosa Negra
"É encerrado em sua solidão que o ser de paixão prepara suas explosões ou seus feitos"
(Gaston Bachelard, A Poética do Espaço)
para Otavio
Olhem bem aquele jovem: cultiva a sua solidão tal qual uma ostra a pérola. É de matéria de solidão que se constroem os muros de sua fortaleza. Solidão que não pesa feito o breu – age, antes, como éter: entorpece e move os primeiros passos para que se adentre nos moinhos do mundo. Solidão que não se traduz em falta – é antes o estar-em-si que tantos de nós temos desaprendido.
Rosa negra – sua solidão é sua rosa negra, cálida e cândida. Semente plantada em seu jardim de quimeras. Cultivada em terra-húmus, no canto de seu canto (o dele).
Como todo bom jardineiro, cuida dessa rosa, todos os dias, com afinco. Quando consegue por fim senti-la arder, é hora de soprar as suas pétalas ao mundo, e é então que essa solidão se dissipa por entre rostos e dentes, baila sua festa por entre as frestas. E é então que essa solidão vive a sua glória.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Mas ria
Nunca mais vi Maíra sorrir: na redondez de seu rosto aqueles mesmos olhos de amêndoas – mas sorriso, quase nenhum. (É feita de quê sua ira, Maíra? De pedra ou de musgo? De aço ou veludo?) Mas ria, nos tempos já idos, sem culpa ou por quês, sem mais nem medos – ria. Lembro quando me vinha mostrar suas miudezas na palma da mão, tirava daqui e dali uma exclamação à toa! E agora deu pra gostar só das reticências... Ah, menina.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Essa brecha que não se fecha mais
para Lidia
É que desaprendemos um pouco a ser sozinhos depois que, no amor, nos tornamos homens reconhecidos pelos homens – nossa imagem belamente renascida e realçada no espelho do outro.
Não é que o amor tenha nos roubado a dádiva de sabermos amar a nossa solidão. É que o amor abre na vida da gente essa brecha de espaço para o deleite de tamanha e tão doce embriaguez compartilhada – essa brecha que não se fecha mais.