domingo, 9 de agosto de 2009

Sobre esse meu monossilabismo. (Curioso haver o abismo contido na palavra). Sobre esse silêncio duramente interrompido e sobre a força cega da voz que vibra as pregas abrindo caminho no escuro e que sai como em parto – e se solta oscilante no mundo. Palavra que ponho no mundo passa frio, sim. Passa sede. Sobre essa minha intransitividade, limito-me a dizer que a tenho com a sobriedade dos loucos, mas escuta um segredo: é somente (e sempre) às meias-noites que me abro em flor.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lambia os dedos com saliva e saboreava aquelas páginas férteis de palavras, mastigando-as uma a uma, sem piedade. Até os pingos dos is ela mastigava, a mais indigesta das palavras ela triturava entre os dentes, meu deus. A mãe sempre falara do olho que era maior que a barriga. Da boca de Clarice transbordavam as letras avulsas, partidas, inteiras, cuspidas. (Sim, porque dos poemas até aceitamos de bom grado engolir o sumo das entrelinhas, mas as letras ficam.) Era comum engasgar-se com as vírgulas, ciscos nos olhos da menina. Crocodilo era palavra crocante coberta com caramelo e Sublime tinha o gosto da noite no céu. Fazer poema, para Clarice, era sorrir e o poema saía, salpicava de estrelas o silêncio do papel, quando lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse ela respondia bem isso, que queria ser dessilenciadora.

sábado, 27 de junho de 2009

quis

um poema que tivesse a medida certa dessa dor

de querer


um poema

que então me curasse

que beijasse (calasse) minha boca

me acariciasse os cabelos e os medos

um poema que me fosse

em meu lugar


que por fim então me acolhesse

(e eu, exaurida, me entrego)

em sua trama macia de linhas tortas

domingo, 17 de maio de 2009

E agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Assumo a minha solidão:
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa


Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver



Lispector, C.