
terça-feira, 24 de março de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
Sinestesia
O olhar perdido no horizonte de suas divagações alcançará agora seu foco na figura do motorista, a quem por conveniência transfere o peso da incógnita:
– O senhor tá indo pra onde?
Por sobre o banco de trás, uma infinidade de papéis espalhados. Caixas de isopor e um buquê de flores. Ligeiramente murchas – no entanto ainda vívidas –, do lado de fora do automóvel já se podia imaginar os cheiros do vermelho e do amarelo. Sim, as cores diferem-se também por seus distintos cheiros, e não há olor que escape de ser imagem. Era assim: em sua paleta desabafava as cores que almejava ser. Com a paciência e a destreza de uma alquimista, Janaina se entregava, bailarina que também era, à incansável dança dos pigmentos. Ao final do dia, sorriso nos lábios, belas mãos sujas de tinta, o corpo cansado estirado na cama.
A voz do motorista soa baixa e seca – não uma secura de descaso ou de desprezo, mas o seco como a condição da ausência do úmido mesmo:
– Vou passar pelo centro. Augusto de Lima com rua da Bahia.
– Serve.
Bateu a porta, entrou no carro. E durante os próximos longos minutos não houve palavra lançada naquele silêncio contaminado pelo incômodo perfume das flores. Ambos assistiam calados a um mesmo teatro encenado por máquinas emissoras de fumaças cinzentas, bem à frente. A cidade opaca – Belo Horizonte opaca. Mais uma vez o cinza, que ao menos se apresentava generosamente em variados tons. E as flores. E claro: o azul. O azul, desde o início ela reparara, o azul tomado emprestado do céu pelos olhos daquele homem – que definitivamente não era belo. Até mesmo a desbotada camiseta azul usada pelo motorista parecia menos azul perto de suas pupilas. Azul daqueles que ninguém se atreve, preso no abismo da garganta um choro azul... Inexistente na teoria das cores, azul nunca alcançado por nenhum pigmento de sua paleta, azul-nunca. Da sua existência a cidade não desconfiaria.