quarta-feira, 8 de julho de 2009

Lambia os dedos com saliva e saboreava aquelas páginas férteis de palavras, mastigando-as uma a uma, sem piedade. Até os pingos dos is ela mastigava, a mais indigesta das palavras ela triturava entre os dentes, meu deus. A mãe sempre falara do olho que era maior que a barriga. Da boca de Clarice transbordavam as letras avulsas, partidas, inteiras, cuspidas. (Sim, porque dos poemas até aceitamos de bom grado engolir o sumo das entrelinhas, mas as letras ficam.) Era comum engasgar-se com as vírgulas, ciscos nos olhos da menina. Crocodilo era palavra crocante coberta com caramelo e Sublime tinha o gosto da noite no céu. Fazer poema, para Clarice, era sorrir e o poema saía, salpicava de estrelas o silêncio do papel, quando lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse ela respondia bem isso, que queria ser dessilenciadora.

sábado, 27 de junho de 2009

quis

um poema que tivesse a medida certa dessa dor

de querer


um poema

que então me curasse

que beijasse (calasse) minha boca

me acariciasse os cabelos e os medos

um poema que me fosse

em meu lugar


que por fim então me acolhesse

(e eu, exaurida, me entrego)

em sua trama macia de linhas tortas

domingo, 17 de maio de 2009

E agora sei, eu sou só
Eu e minha liberdade que não sei usar
Assumo a minha solidão:
Sou só, e tenho que viver uma certa glória íntima e silenciosa


Guardo teu nome em segredo
Preciso de segredos para viver



Lispector, C.

terça-feira, 5 de maio de 2009

nos intervalos do sono
(ao leve abrir dos olhos)
avistava aquela ilha

de luz


aquele corpo, pedaço de terra


– terra à vista!


epiderme do desejo

branco do sonho

suspiro do repouso

profundo




(o meu mergulho era o sono, águas gélidas e escuras, e o meu breve respirar era ver ali aquele corpo entregue ao acaso – como flor esquecida ao relento que só espera ser apanhada)